Universidade de verão do Front de Gauche

No passado fim de semana, em Grenoble - França, participámos (com a Marisa Matias e o José Soeiro) na universidade de verão do Front de Gauche, uma iniciativa com inúmeros ateliers e enorme participação.

Pode ver aqui o programa.

Aqui ficam também algumas fotos do evento.


Nos seminários internacionais








Sessão de encerramento


video



Nem só de discursos vive o homem...


Com Maite Mola (responsável internacional do PC de Espanha), Marisa e Jean-Luc Melenchon

Lideranças paritárias




Publicado em: O Gaiense, 25 de Agosto de 2012

A proposta de um modelo de liderança paritária do Bloco tem gerado acesa discussão, sobretudo por ser inédita no mundo partidário português. Essa solução existe noutros partidos europeus, como tem sido referido, e o grupo parlamentar dos Verdes / Aliança Livre Europeia há muito a adoptou. É em todos os casos uma liderança paritária, porque a hipótese bicéfala com dois homens ou duas mulheres nunca esteve em cima da mesa.

Mas no atual debate não tem sido referida a experiência europeia do Bloco nesta matéria. O partido da Esquerda Europeia, fundado em 1999, a que o Bloco pertence, tem estrutura rigorosamente paritária: a Comissão Executiva tem número igual de homens e mulheres e, no Congresso, cada partido membro tem direito a 12 delegados, 6 de cada género; se um partido se fizer representar por 4 de um género e 8 de outro, só 4 de cada género terão direito de voto, para garantir votações em absoluta paridade. Nada disto se passa em Portugal, nem está proposto que se passe no Bloco, mas é a realidade partidária que os bloquistas já vivem a nível europeu.

Esta paridade tem apenas uma exceção: a presidência do partido, que é exercida por uma pessoa e os três eleitos até hoje foram homens. Não tem sido dito que, há dois anos, no 3º Congresso da Esquerda Europeia, o Bloco avançou com a proposta de uma presidência paritária. Gerou polémica, houve gente a apoiar, sobretudo dos partidos que têm eles próprios esse modelo, mas não houve condições para vencer. Voltou a eleger-se um presidente. Mas, nos 4 vice-presidentes há paridade. Isto é, a paridade já subiu até ao nível da vice-presidência.

O mesmo acontece nos diferentes sectores da nossa sociedade: os ancestrais preconceitos patriarcais estão a ser lentamente vencidos com uma exceção: os lugares de topo. Nesse último reduto, seja nas universidades, na banca ou nas empresas, no sindicalismo ou na política, por todo o lado, o sistema patriarcal resiste vitorioso. O passo decisivo da conquista da igualdade no topo será muito difícil e precisará de medidas de exceção. Só depois, quando formos todos naturalmente iguais, estas quotas de género se tornarão obsoletas e cairão por si.

Estranha leitura de férias




Publicado em: O Gaiense, 18 de Agosto de 2012

Em Agosto, para sublinhar a liberdade absoluta das férias, gosto de passear os olhos pelas prateleiras da biblioteca e levar para o jardim um livro daqueles que em dias normais nunca leria. Assim percorri deliciado as 142 páginas do Programa do PPD (hoje PPD/PSD), aprovado no seu 1º Congresso, em 1974, de que aqui vos deixo, sem comentários, algumas frases soltas, para meditação estival:

"O capitalismo multiplicou por toda a parte as desigualdades, a dependência económica e política, a alienação e a desagregação sociais. O sistema económico baseado no lucro revelou-se incapaz de assegurar o pleno emprego sem intervenção correctora da comunidade social."

"É indispensável assegurar uma justa repartição dos rendimentos, com adequadas políticas fiscal e de salários; uma justa repartição da riqueza, lutando contra a sua acumulação e limitando a sua transmissão gratuita; uma repartição do poder económico mediante controlo do Estado, sindicalismo forte e introdução da co-gestão dos trabalhadores nas empresas."

"A fim de diminuir e eliminar progressivamente a concentração da riqueza deverá ser criado um imposto anual sobre a riqueza, incluindo a não produtiva, quando exceda determinados montantes.
Nas empresas, deve proceder-se progressivamente à atribuição aos trabalhadores de parte dos lucros, assegurando-lhes uma efectiva participação no capital."

"O PPD propõe a garantia do poder de compra dos salários através da sua indexação relativa ao custo de vida, de forma a defendê-los contra a inflação."

"Do ponto de vista regional e dentro do critério de que o social prima sobre o económico, atender-se-á mais ao bem-estar de cada comunidade do que a uma imediata reprodutividade económica. Esta linha impõe-se principalmente no que respeita à electrificação das regiões rurais, à rede de estabelecimentos de saúde e de escolas nas comunidades mais abandonadas, e à rede de comunicações nas áreas mais isoladas."

"O sector da energia — decisivo para o êxito da política industrial — deverá ser fortemente integrado, vertical e horizontalmente, em grandes empresas nacionalizadas ou com forte predomínio do Estado."

“Margem de manobra”



Publicado em: O Gaiense, 11 de Agosto de 2012

Mario Monti, numa entrevista dada esta semana ao Der Spiegel, alerta para o perigo de os governos se deixarem comprometer totalmente pelas decisões dos seus parlamentos, sem guardar para si uma margem de manobra. Os parlamentos, cujas dóceis maiorias têm vindo a aceitar tudo o que é inaceitável, até esses agora preocupam o primeiro ministro italiano, logo ele que acedeu ao cargo sem se submeter a uma eleição, e que nele se mantém apenas porque tem o consentimento do parlamento.

O controlo político e algumas decisões dos parlamentos podem limitar a margem de manobra dos governos, mas é exactamente para isso que foram criados. Se o despotismo iluminado dos homens de mão do Goldman Sachs e dos mercados financeiros que exercem funções governativas ainda é, por pouco que seja, travado pelas regras da democracia, pelos parlamentos e pela opinião pública, só temos a felicitar-nos com isso e apenas lamentar que não o façam de forma mais decidida e eficaz.

É certo que num jogo de futebol em que não houvesse regras nem árbitros, os jogadores poderiam mostrar sem constrangimentos a sua criatividade e iniciativa, e certamente haveria muitos mais golos. Mas duvido que os leitores estivessem interessados em ir ao estádio contemplar tal espectáculo. Da mesma forma, essa economia sem regras nem árbitros que o grande capital quer hoje construir na nossa Europa, poderia ser a grande oportunidade para alguns fazerem fortuna, mas seria seguramente um sítio onde muito poucos gostariam de viver.

Um dérbi diferente



Publicado em: O Gaiense, 4 de Agosto de 2012

Domingo fui assistir a um grande dérbi. A rivalidade entre as equipas das vizinhas cidades polacas de Gorzów e Falubaz não fica nada a dever às rivalidades clubísticas que conhecemos por cá. Estradas congestionadas no acesso ao estádio. Os estádios têm capacidade para 20 mil pessoas e esgotam sempre nos dérbis. Um aparato policial assustador, capaz de aguentar uma verdadeira guerra entre claques. Zonas de estacionamento separadas, já que aqui as matrículas indicam a cidade de origem e um carro estacionado na zona errada tem poucas hipóteses de regressar intacto. Fui integrado na claque visitante do Gorzów Stal, um clube criado em 1947 por trabalhadores mecânicos e metalúrgicos.

O desporto rei mobiliza paixões talvez mais intensamente do que em Portugal. Só que nesta região, o desporto rei é, há muitas décadas, um certo tipo de corrida de motos (designação internacional: speedway) com motos especiais de 500cm3 de cilindrada, sem travões, usando metanol como combustível. Os heróis deste desporto são verdadeiros ídolos populares. Têm direito a estátuas no centro da cidade. As suas fotos estão por todo o lado. São rosto de publicidade de bancos, como por cá o Mourinho ou o Cristiano Ronaldo.

Cada corrida consiste em séries de 4 voltas ao estádio numa pista de terra, 4 atletas de cada vez, a velocidades alucinantes. Antes da corrida, a pista é alisada e regada levemente para adquirir a consistência adequada, nem muito seca, nem demasiado molhada. Mas, neste domingo de dérbi, com o estádio cheio e espectadores ao rubro, minutos antes da corrida abateu-se sobre Falubaz uma chuva absolutamente diluviana. A pista ficou impraticável e a corrida teve de ser adiada. Não houve vencedores nem vencidos, nem guerra de claques. Emoções adiadas para 8 de Agosto.

Negócios de férias



Publicado em: O Gaiense, 28 de Julho de 2012

Algures na Polónia, nas margens calmas de um lago de nome indizível (Pszczew), um amigo polaco ajudava-me a entender as notícias do dia. Neste início de férias, falava-se do que se tem passado com uma série de edifícios do Estado destinados a férias dos trabalhadores, nomeadamente da função pública, algo do tipo das nossas unidades hoteleiras do Inatel.

Seguindo religiosamente (estamos na Polónia...) o breviário neoliberal, o governo entendeu que esses edifícios deveriam ser vendidos a privados. Acontece que os corajosos e empreendedores concorrentes à compra dos ditos edifícios, que se transferem da esfera pública para a iniciativa privada, são, nem mais nem menos, membros do governo ou seus familiares e amigos próximos, que compraram os imóveis a preços que lhes permitem recuperar a totalidade do capital investido num só ano de arrendamento ou exploração.

Pode colocar-se a velha pergunta do ovo e da galinha: primeiro vem a ideologia neoliberal e depois os negócios chorudos que ela tem proporcionado, ou é precisamente para justificar tais negócios que esta ideologia se desenvolveu? Lembro-me de uma frase escrita por Fernando Pessoa num artigo para a Revista de Contabilidade: “Toda a teoria é a teoria de uma prática, toda a prática é a prática de uma teoria.” Se tivesse visto os actuais teóricos do neoliberalismo e da austeridade em acção e a correlação destas teorias com a prática de extorsão massiva de recursos dos povos e dos países, Pessoa teria certamente reforçado a sua convicção.

Actos de uma tragédia em cena



Publicado em: O Gaiense, 21 de Julho de 2012

Está a decorrer na Grécia a Universidade de Verão da Esquerda Europeia, onde mais de 400 pessoas, vindas de todo o continente, de Portugal à Moldávia, de Itália à Finlândia, partilham experiências e ideias, numa semana intensa de debates e seminários.

Num colóquio sobre “A cultura e a crise”, uma actriz grega explicou como a política da troika está a aniquilar por completo o teatro e a televisão nacionais; 95% dos actores estão sem trabalho, teatros fecham um após outro e a produção televisiva foi aniquilada. Para substituir a produção própria, a TV grega importa agora telenovelas turcas baratas, cujas temáticas são bem diferentes das gregas. Um tema recorrente dessas novelas é o da preservação da virgindade das raparigas, encarada como um assunto da família e não das próprias raparigas, algo estranho à cultura grega. Porém, explicou a oradora, os miúdos gregos que assistem às novelas, começam a discutir o assunto e a assimilar uma visão que choca com os valores civilizacionais do seu próprio país.

Na Grécia, podemos assistir à terrível devastação que está a ser provocada na vida social e individual e nos serviços públicos pelas políticas de extorsão massiva dos recursos do país através dos juros exorbitantes e das medidas de austeridade. Na terra que foi berço da cultura e do teatro europeu, o teatro está a ser destruído sob as ordens dos implacáveis funcionários do FMI, do BCE e da Comissão Europeia, ao serviço dos mercados financeiros. Mas esta peça está longe de estar terminada, e o povo grego não desistiu de escrever ele próprio as próximas cenas.



“À terceira cai quem é burro”


Publicado em: O Gaiense, 14 de Julho de 2012

O primeiro-ministro espanhol, eleito há poucos meses com a promessa de não aumentar impostos, acaba de aumentar os impostos e de cortar nos subsídios de Natal e de desemprego. Mariano Rajoy, que disse na campanha que “subir o IVA é um disparate, que trará mais crise e mais desemprego”, acaba de subir o IVA. O mesmo que disse que não tocaria na saúde, na educação e nas pensões, acaba de cortar em todos esses sectores. O governante que disse que a Espanha receberia dinheiro da troika sem ter de se submeter a um programa de austeridade, acaba de aceitar um programa de austeridade igual ao nosso. O homem que negociou um empréstimo até 100 mil milhões para salvar a banca, recusa uma pequena fracção desse valor para salvar regiões inteiras que vivem da actividade mineira.

Espanhóis como portugueses tinham eleito governos socialistas que, chegados ao poder, fizeram o contrário do que tinham prometido. Espanhóis como portugueses, desiludidos ou furiosos, decidiram correr com os socialistas elegendo governos de direita que prometiam fazer tudo diferente. Novamente viram rasgados os compromissos eleitorais depois de contados os votos. Há um ditado popular que diz: “à primeira, quem quer cai; à segunda, cai quem quer; à terceira, cai quem é burro”.

Das minas das Astúrias até às Puertas del Sol, das nossas terras do interior, onde se eliminam um a um os serviços públicos, até às praças de Lisboa, onde se junta todo o tipo de vítimas das políticas de destruição em curso, parece haver dois povos irmãos a dar sinais de que à terceira talvez não caiam. Mas, para não sermos os burros do ditado, há que preparar com antecedência uma nova solução política, forte, bem pensada e ganhadora, que nos tire deste túnel infernal com vista para o abismo em que estes governos nos meteram. Fazê-lo lado a lado, portugueses e espanhóis, poderá tornar as coisas um pouco mais fáceis.